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Artigo: Apenas uma questão de beleza e elegância?

Analisamos uma das grandes questões brasileiras do fim do século XX ainda sem resposta: qual a diferença entre o Charme e o Funk?

Em meados da década de 1990, uma pergunta tomou conta do Brasil. Onde houvesse duas ou mais pessoas reunidas, o tema de discussão era quase certo, e por muitos meses foi praticamente impossível se sentar na cadeira de um barbeiro, à mesa de um bar ou mesmo em um almoço de família sem ouvir: “E o Curintia, hein?” “Qual a diferença entre o Charme e o Funk?”.

Iludidos pela letra da música, muitos acreditaram que se tratava de mera questão de vestimenta. O tempo passou e eu sofri calado e a canção caiu em certo esquecimento, mas algumas pessoas ainda hoje se dedicam à pesquisa da diferença indagada no CD Rap Brasil. Este trabalho visa expor, ainda que de forma inconclusiva, descobertas feitas em alguns desses estudos.

Uma das correntes de estudo mais promissoras, que produziu mais resultados e tem maior aceitação atualmente entre a comunidade científica é a de que, por uma miríade de fatores, seria praticamente inviável analisar ambos os elementos de forma geral, como são apresentados nos versos de Mc Dollores e Mc Marquinhos. Nesse caso, são escolhidos tokens, ou símbolos, visando representar cada estilo. A saber:

charmefunque01Afinal, não são ambos bonitos e elegantes?

A primeira diferença que notamos é estética, visual – enquanto o Charme se mostra de cor branca e espessura mais fina do que o normal, o Funk, bem… não. Outra diferença percebida é na postura: enquanto o Charme afirma ser necessário (imagem abaixo), o Funk mostra, em uma de suas letras, atitude muito mais branda em relação a si mesmo: “Humildade, disciplina sem neurose e sem caô”.

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O Charme, cheio de si

Além disso, o Charme sempre foi conhecido por sua embalagem compacta, mas com múltiplos exemplares. Vinte indivíduos em espaço mínimo. Enquanto no Funk os indivíduos são conhecidos pela convivência em grupos menores, com maior liberdade de ação e movimentos.

Há também uma diferença significativa quando analisamos a cronologia de Charme e Funk. O primeiro, depois de gozar de amplo sucesso e participação social nas últimas décadas do século XX, caiu em declínio, corroborado por ações governamentais e de empresas de entretenimento, chegando até mesmo a desaparecer do mercado na forma como o apresentamos neste artigo. O Funk, por sua vez, foi vítima de enorme preconceito social quando de seu surgimento, preconceito esse que perdura até hoje, mas vem gozando cada vez mais. De aceitação social e sucesso, eu quis dizer.

Os estudos, porém, também indicam semelhanças entre Charme e Funk. Por exemplo, ao olharmos para peças publicitárias do Charme, notamos um claro viés sensual, voltado principalmente ao público feminino, com a mensagem implícita “mulher, leve o Charme à sua boca.”

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Os óculos são os mesmos, mas os nossos cigarros…

E o Funk, bem……….

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Como dissemos anteriormente, os resultados são ainda inconclusivos, e as semelhanças e diferenças entre Charme e Funk, mais claramente perceptíveis no passado, parecem mudar radicalmente segundo o contexto social e econômico de determinadas épocas, o que abre precedente para o surgimento de novas dicotomias, seu crescimento ou até mesmo seu desaparecimento.

O que podemos afirmar, com alguma segurança, é que, embora já não seja assunto tão frequente no cotidiano do brasileiro médio, a diferença entre o Charme e o Funk continua sendo um dos grandes mistérios da cultura popular do Brasil.

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