Artigo

Metallica, o Reload e uma inesperada lição de vida

The Lava Lamp aproveita a passagem da banda pelo Brasil para falar de um de seus álbuns menos apreciados

[Minha coluna aqui não vai ter nome, porque se hoje eu quero “Coluna do Lava Lamp”, amanhã eu já prefiro “Coluna do Lava”, depois “Lava Lamp Esclarece” (hã? hã?), passando por “O Idiótico Mundo de The Lava Lamp”, culminando sempre em “I’m Sexy and I Know It”. Sendo assim, melhor que seja nada.]

metallica

Se algum dia no recreio da escola você decidiu se aventurar além da rodinha do pessoal Indie, com suas calorosas discussões sobre qual álbum é melhor – Whatever People Say… ou FWN – e Strokes tocando ao fundo, há uma boa chance de você ter encontrado o grupo do pessoal que veste preto, tem cabelos compridos e pira com solos de guitarra: os metaleiros.

Se foi além e se aventurou em uma conversa com essa espécie tão diferente, é provável que você tenha ouvido falar do Metallica, e certamente não mais que cinco segundos depois ouviu alguma variação da frase “o Metallica antigo, antes de a banda se vender.” É comum.

Em mais de dez anos ouvindo essa história, aprendi que para a maioria dos metalêro a venda do Metallica se deu em 1991, quando a banda desacelerou um pouco e lançou seu “Black Album” (o nome oficial do disco é Metallica), com possíveis, prováveis e comprovados sucessos. Cabe citar aqui a dificuldade de muita gente em aceitar o sucesso do Metallica para além do público metaleiro típico, que já acompanhava a banda em seus quatro primeiros discos (lançados entre 1983 e 1988) – muitos considerariam a banda vendida mesmo se ela chegasse ao sucesso comercial fazendo o mesmo tipo de som que fazia antes, e vale lembrar que a banda já sofreu acusações do tipo quando produziu seu primeiro videoclipe, para One, em 1988.

É inegável que o álbum preto tem um som claramente menos extremo que seus antecessores. Até mesmo o fato de que parte da turnê do disco foi feita com o Guns n’ Roses e o Skid Row, bandas com muito mais apelo pop, comprova isso. Dizer que um álbum que traz músicas como Enter Sandman, Sad But True e Wherever I May Roam não é um excelente disco é pura besteira.

Mas vamos acelerar um pouco, que já se foram quatro parágrafos e nem sinal do assunto dessa coluna… Depois do sucesso e da longa turnê do Black Album, o Metallica descansou um pouco, cortou o cabelo e foi para o estúdio, talvez não nessa ordem. Disso saiu Load, em 1996, e na sequência veio Reload, em 1997. Os dois álbuns talvez figurem entre os mais detestados e execrados da história do Heavy Metal. Com razão? Nenhuma.

Talvez pelo pouco tempo até um novo disco de inéditas, Load acabou se tornando um álbum de certa forma apagado na história da banda, sendo geralmente lembrado quando seu “irmão” de 1997 é citado, e grande parte de tais citações vem carregada de expressões como “aí Metallica acabou de vez”, “disco comercial” e até mesmo a diretíssima “o Reload é uma bosta!”. De fato, em alguns momentos chega a ser difícil acreditar que álbuns como Master of Puppets e Reload são da mesma banda. E sem dúvida, se colocado num ring (hoje em dia se diz octógono?) com Kill ‘Em All, o disco de 97 tomaria uma surra tão rápida quanto o riff de Whiplash. Mas isso, como o disco, não é necessariamente ruim.

Dificilmente alguém negará que o Metallica é uma das maiores e mais importantes bandas da história do Rock, que continua relevante apesar da quantidade de merda proferida cada vez que algum dos caras (especialmente Kirk e Lars) abre a boca para falar sobre internet, novas formas de consumo e produção de música, etc. E talvez o maior motivo para se manter tão relevante para a música como um todo, e não apenas para um nicho, mesmo com atitudes e opiniões tão babacas, seja a capacidade que a banda tem de – sim – se reinventar, buscar coisas novas, se recusar a repetir insistentemente uma mesma fórmula.

(Um flash forward rápido para ilustrar o que eu estou dizendo: depois de Reload, a banda lançou um ótimo disco duplo de covers, ~releituras~ de vários clássicos do Heavy Metal, um maravilhoso disco ao vivo gravado com a Orquestra Sinfônica de São Francisco, parou por um tempo, esperou James Hetfield tratar seu alcoolismo e retornou em 2003 com St. Anger, disco que revisita o passado da banda sem deixar de trazer inovações a seu som, e que, adivinha, é criticado por muitos fãs.)

Apenas dê play no vídeo acima.

Mas vamos ver o Reload, ou melhor, ouvi-lo.

O disco começa com a porradaria de Fuel e emenda The Memory Remains, que conta com a participação de Marianne Faithfull e um riff que remete a nada menos que Sabbath Bloody Sabbath. Quantas bandas não passam a vida toda sonhando em compor uma música como essas? Muitas. Passamos por The Unforgiven II (sequência de The Unforgiven, do álbum preto), uma das melhores músicas do disco, e Better Than You, com a mistura de influências de Heavy Metal e Punk criando um excelente Hard Rock. Carpe Diem Baby nos faz pensar imediatamente em Stoner Rock com seu riff arrastado, aceleramos mais uma vez com Prince Charming e passamos pela balada Low Man’s Lyric. O disco termina com Fixxxer, outro destaque, com seus oito minutos de duração. Dá pra não gostar do som, o que não dá é pra desmerecê-lo.

Longe de ser um álbum de uma banda que se vendeu ou se perdeu, muito além de ser um álbum de Heavy Metal, o Reload é um PUTA DISCO DE ROCK. Um disco que só foi possível porque a banda busca o novo, foge de sua zona de conforto e abraça a mudança (pelo menos no que diz respeito ao som). Um disco que pode inclusive nos ensinar que, independente dos nossos gostos e opiniões, o diferente não é algo ruim, desprezível ou execrável, o diferente é apenas diferente. E que é sempre bom mantermos a cabeça aberta.

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