Artigo

[Ficção/Crítica Social Foda] Explicando o inexplicável

O executivo de um grande time de futebol explica as negociações com Robinho à esposa

Após um acidente que a deixa em coma no final de 2002, uma mulher acorda repentinamente no dia de Natal de 2017. Aos poucos, tenta entender o mundo em que agora vive e se atualizar quanto ao que aconteceu e está acontecendo. Em uma tarde de janeiro, seu marido, executivo de um grande time de futebol do Brasil, conversa com ela sobre o trabalho.

– …Agora nós estamos negociando com o Robinho, lembra dele?

– Claro! Do Santos, o rei das pedaladas. Legal ele ainda jogar, deve ter virado um dos grandes do mundo.

– Mais ou menos.

– Como assim?

– Bom, ele ganhou mais um campeonato brasileiro em 2004 e depois foi para o Real Madrid.

– Uau!

– E jogou também no Manchester City, que agora é grande, no Milan e até na China.

– Ele jogava muito, deve ter sido uma grande estrela mesmo. Deve ser ídolo em todos esses lugares, né?

– Não exatamente.

– Nossa, por quê?

– Ah, sabe como é, coisas do futebol. Não sei se ele deixou muita saudade em algum desses times.

– Mas pra estar tão bem cotado assim até hoje, deve ter feito história na seleção. Um menino da Vila jogando com a dez do Pelé, imagina!

– Ele fez uns gols no Chile. Ganhou Copa América.

– Que mais?

– Confederações.

– E só?

– Só, mas ninguém ganha nada sozinho, né. A seleção não andava lá essas coisas. Enfim. Agora nós estamos pensando em uma engenharia financeira, porque o salário vai a quase um milhão de reais.

– Nossa! Mas quanto os principais jogadores ganham aqui hoje? Três, quatro milhões?

– Não, não. Ele é um dos maiores salários, é um dos principais jogadores.

– Mesmo?

– É, sim. Bom, ano passado no Galo ele fez uns quinze gols.

– Não parece muita coisa.

– Não é, pra ser sincero.

– Mas você entende disso melhor que eu. Ainda mais agora. Se acham que vale a pena o esforço, é porque deve valer.

– É, mas não é só isso. Tem outro problema.

– Que problema?

– Ele foi condenado por estupro na Itália.

– O QUÊ?

– Mas foi em primeira instância, ele está recorrendo.

– Ah, então tudo bem.

– Quer dizer, ele tem o direito de provar a inocência.

– Tem mesmo, como todo mundo. Na semana passada você me falou do motorista que provocou meu acidente, né?

– Hum.

– Ele foi condenado em primeira instância também e recorreu depois.

– Foi. Ele desacreditou nossa testemunha, invalidou algumas provas e foi absolvido. Mas foi ele quem fez isso com você, não tem nenhuma dúvida.

– Mas não pode acontecer algo parecido nesse caso?

– Não sei. Acho que não. É na Itália, sabe, lá as coisas devem ser diferentes.

– Devem. Nenhum culpado por estupro seria absolvido. As coisas devem estar muito melhores nesse sentido hoje em dia. Mas e aí se vocês contratam ele, como fica?

– Ele joga e recebe normalmente até a decisão final do caso. Nós podemos nos proteger no contrato em caso de condenação definitiva.

– Sim, claro. Mas e a cara de vocês, como fica? O sono à noite? A imagem com o mundo, com as mulheres da torcida?

– Bom…

– Porque me parece um absurdo simplesmente negociar numa situação dessas. As mulheres que torcem pro time não se manifestaram? O que elas pensam disso?

– É, nós já recebemos algumas críticas pelas redes sociais. Muitas, na verdade. Jornalistas também falaram contra.

– Quer minha opinião? Se é que eu ainda gosto de futebol, eu não consigo me ver no estádio comemorando um gol de alguém com uma acusação dessas. Imagina usar a mesma camisa?! É uma falta de respeito enorme. Parece que vocês não ligam pra nada disso se o jogador faz dez gols.

– Eu não sou a favor, sabe? É ideia do presidente. Ele é habilidoso, pode gerar muito marketing.

– Eu sinceramente não consigo entender.

– Eu também não.

– É, mas eu passei quinze anos em coma.

Espera só até ela ouvir o caso do goleiro Bruno.

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